Augusto Cacá

A poesia representa o homem para que ele se reconheça, se estranhe e se transforme. Fadas Guerreiras

Textos

Cordel do outro mundo
Era uma vez, num passado remoto,
Havia um rei, num reino distante,
Que todos os dias e a todo instante,
Queria que o povo lhe fosse devoto.
Coitado do pobre que não lhe desse voto!
Era perseguido até o fim do mundo.
E pra maltratar, e pra doer fundo,
Fazia de tudo para humilhar.
Bastava o caboco se aposentar
Pra ele dizer que era um vagabundo.

Era um rei covarde e também traidor.
Traía até os correligionários.
Pegava o dinheiro dos empresários
Para derrotar o seu opositor.
Mas deixa que ele, pra cada valor
Que entrava no caixa, tirava uma cota.
Pensava consigo: “E se o povo não vota?
Perco a eleição, mas tenho o caixa dois.
De qualquer modo, uns meses depois,
Compro uma fazenda com o Sérgio Motta.”

Então, no seu reino, era assim o esquema:
Com muito dinheiro, ganhou a eleição,
Comprou a fazenda e fez um casarão
Com sobra de caixa do velho sistema.
Posava de santo, rezava novena
Com Jader Barbalho, ACM e Arruda.
Mas deixa que ele, quando a coisa muda.
Foge de fininho pra não levar fama.
Deixa seus amigos rolando na lama.
Muda sua reza, medita pra Buda.

O sujeito falso, é assim que ele faz:
Troca de discurso conforme o freguês.
Fica submisso falando em inglês
E é prepotente com o povo de paz.
Já foi professor e agora desfaz
Dessa profissão com raiva e com ira.
Um homem que contra os colegas conspira
E todo arrogante os chama de coitados
Não é mais um homem. É desenganado.
Não é brasileiro, nem é caipira.

Assim, nossa terra tá desgovernada.
De fato, quem manda é rico estrangeiro.
Controla o trabalho, a cultura, o dinheiro.
Em grandes fazendas, ninguém planta nada.
Por isso os sem-terras pegam na enxada,
Derrubam a cerca e plantam o alimento.
E criam escolas nos acampamentos
Pra mostrar aos filhos quem é que produz,
Quem planta o milho e quem faz o cuscuz.
É esse o perigo do conhecimento.

O povo sabendo que é ele que cria,
Vivendo no mundo com terra à vontade,
Não vê mais sentido na propriedade,
Pois tem mesa farta de noite e de dia.
Trabalha um período e no outro é folia,
E pode ter descanso e sonhar com um futuro
Sem cercas nem trancas nem grades nem muros.
E faz sua arte sem travas morais.
Tudo que oprime esse povo desfaz.
E cria outro mundo mais justo e seguro.
Carlos Augusto Cacá
Enviado por Carlos Augusto Cacá em 26/04/2009
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, desde que seja dado crédito ao autor original (Augusto Cacá) e as obras derivadas sejam compartilhadas pela mesma licença. Você não pode fazer uso comercial desta obra.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras